O mergulhador que o mundo esqueceu – e não deveria

Por Henrique Bolini

As vezes um design de caixa pode ser tão icônico que acaba se tornando uma espécie de “benchmark”, podendo representar até uma marca inteira.

A história da Panerai é envolta em suposições, mas, por mais enevoada que a sua história seja, o desenho de uma caixa de um relógio Panerai é reconhecido a quilômetros de distância. Independente de quem a idealizou — e não se sabe de fato quem surgiu com o design e funções finais, mas existem empurrões de três empresas: Borgel, Perregaux et Perret e uma tal de C.R. Spillman.

E por que a introdução está sendo feita desse jeito? Em um mundo horológico no qual o debate sobre homages e cópias voltou a ficar acalorado, cavar as origens é, sim, importante! Hoje falaremos de um relógio (ou melhor, um dos… e talvez o mais famoso) equipado com uma caixa de desenho distinto e que, muitas vezes (9 a cada 10), é chamada de “Baby Panerai” ou “Mini Panerai” — hoje é dia de falarmos do Nivada Depthmaster!

O Depthmaster tem suas origens no ano de 1965, a década de ouro dos relógios de mergulho. Nessa década, cada empresa tentava se destacar de uma forma diferente e várias iniciativas coexistiram visando resolver um grande problema que os relógios de mergulho possuíam à época: a impossibilidade de voltarem à superfície inteiros, dada a infiltração de hélio nas caixas. Entre as iniciativas, tínhamos: tecnologia super-compressor da EPSA, válvula de hélio da Doxa e, obviamente, empresas que tentavam reinventar a roda, apenas aprimorando as caixas já existentes visando aumentar a resistência à água.

Uma dessas tentativas originou a caixa cushion (provavelmente produzida pela C. R. Spillman), distinta e extremamente resistente, que foi parar não só no Nivada Grenchen Depthmaster, mas em uma dúzia de outras marcas (literalmente de Orient a LeCoultre), com modelos prometendo um WR de 1000m! Essa marca só seria quebrada anos mais tarde, quando a Rolex finalmente conseguiu fazer o retrofit da válvula de hélio no seu modelo Sea-Dweller e que ela funcionasse de maneira estável.

A princípio, a versão da Nivada para o diver 1000m de caixa cushion possuía um mostrador com numerais arábicos pares grandes e pintados em material luminoso, mas a variação que de fato selou a fama do modelo apostou em uma outra tipografia de mostrador, apenas com os números 3, 6, 9 e 12, que contavam com uma fonte extremamente diferente de tudo que já havia sido visto em relógios de mergulho e também eram pintados em material luminoso — mas não se engane… o apelido “Pac-Man” surgiu décadas após seu lançamento.

Apesar da riquíssima história, tanto a Nivada S.A. quanto a Croton Time Co. não sobreviveram à década de 70 e à crise que tomou conta da relojoaria suíça, mas, em 2018, a marca fora finalmente trazida de volta à vida, mantendo e respeitando os laços com a sua história e herança — coisa rara hoje em dia! Não à toa, a marca faz parte do portfólio da Herit (por isso o slogan “curadoria, exclusividade e tempo bem investido”).

O Depthmaster está disponível em dois tamanhos (39mm e 42mm) e em várias combinações possíveis, mas hoje quero focar em três combinações distintas do modelo em 39mm, com um pequeno disclaimer: fora o tamanho da caixa, nada mais muda, então tudo que for dito sobre o 39mm pode ser tranquilamente replicado ao 42mm, ok?

A caixa cushion de 39mm de diâmetro x 47mm na distância entre os pinos tem um desenho que exala anos 50, adotando um padrão de desenho em “U” quando visto da lateral e contando com garras espessas, longas e levemente curvadas, que abraçam o punho. O que isso implica no uso? Duas coisas: conforto e faz o relógio vestir ligeiramente maior do que o tamanho indica.

Esse desenho de caixa tem suas origens lá no Rolex-Panerai referência 6152 e é considerado icônico na história dos relógios de mergulho por sua conexão com a marinha italiana — tanto que a Panerai até hoje referencia parte da sua linha Luminor como 1950, porque seguem esse desenho de caixa.

O polimento conta com faces escovadas de forma radial (incluindo o bezel) e com estrias tão bem feitas que só aparecem em um olhar mais minucioso; faces espelhadas; e a transição (corte) entre uma e outra é tão perfeita que parece mentira.

Em uma das laterais da caixa fica a coroa assinada, que possui uma rosca extremamente tátil (eu acredito ser por conta da alta resistência à água do modelo), e, na outra lateral, encontra-se uma válvula de hélio automática perfeitamente executada e integrada à caixa. Não acredita em mim? Olhe a execução da válvula de hélio de um Tudor Pelagos, por exemplo, comparada à do Depthmaster e me fale que estou errado…

Falando em perfeição na execução, o bezel também é um show! Sua ação, em 120 cliques, é precisa na medida, com pouquíssimo “backplay” (folga reversa) para não ficar artificial. Com 37mm de diâmetro nesse modelo (são 40mm de bezel no modelo 42mm) e ranhuras bem definidas na sua extremidade, tornando fácil o uso, mesmo com luvas de mergulho.

O cristal do modelo é confeccionado em safira, reto (o que evita distorções na leitura, que lá têm seu charme, mas não são práticas), e equipado com tratamento antirreflexo, possivelmente na face externa. E, atrás desse cristal, está uma das partes mais bonitas, bem-feitas, características e exclusivas desse modelo: o mostrador!

Como disse lá na introdução, muitos relógios dividiram essa caixa, mas nenhum executou tão bem a peça inteira, mantendo uma comunicação de estilos entre caixa e mostrador como a Nivada. Explico: a caixa, por si só, tem um apelo Art Déco, mas só a Nivada foi capaz de manter essa linguagem visual no mostrador…

Ele é simplesmente diferente de tudo que você já viu em relógios de mergulho, eu garanto! A tipografia dos índices parece esquisita num primeiro momento, mas basta olhar mais algumas vezes para o mostrador para se acostumar. E não é só isso, pois a qualidade de execução beira a perfeição em sua simplicidade, contraste e alta legibilidade. Isso aqui é uma escola de como um mostrador de um relógio de mergulho deve ser! Pênalti? Para meu gosto pessoal, a cor amêndoa do material luminoso, invocada através de um “envelhecimento artificial”, não me agrada em absolutamente nada… mas, pelo menos, a qualidade do material luminoso é excelente! (Leia-se: ele brilha, e não é pouco).

Para quem achava que as qualidades acima limitam-se à versão de mostrador preto, se enganam, pois tive, no exemplar de mostrador laranja, uma surpresa mais positiva ainda: de concepção mais complexa que a do mostrador preto, ele possui material luminoso em toda a sua extensão, abusa do contraste com o preto e possui seus índices aplicados de maneira elevada, sem a presença da coloração deveras artificial do seu primo mais tradicional. É de cair o queixo, garanto…

Passando para os ponteiros, vocês podem ter a impressão de que são “tradicionais demais para o conjunto”, mas, se olharem com atenção, verão pequenos detalhes que fazem toda a diferença e os afastam do “lugar comum”: são planos, espessos e de tamanho perfeito, garantindo uma leitura muito fácil. O ponteiro de segundos tem um desenho mais complexo que conversa muito bem com o estilo Art Déco geral do relógio.

Garantindo o funcionamento desses está o bom mecanismo Soprod P024, um clone de ETA 2824, bem como a Sellita SW200 e o STP 1-11, para citar alguns. Não é a primeira experiência que tenho com um calibre Soprod, bem como não é a primeira experiência que tenho com um clone de ETA 2824, mas lhe garanto que foi a melhor delas. Primeiro porque o P024, talvez por não ter o estágio da data aqui, não “engasga” para chegar no estágio de acerto das horas tal qual os SW200, bem como não “engasga” no ajuste das horas tal qual o Soprod Newton. Fora isso, é o padrão da ETA 2824: 25 joias, 28.800 vph, cerca de 38h de reserva de marcha e um acabamento que deixa a desejar — e aqui não lembro se a Soprod oferece opções de acabamento tal qual a Sellita; acredito que não…

Por fim, a Herit oferece as variações no bracelete estilo grãos de arroz e na pulseira de borracha estilo Tropic. Para mim, existem pênaltis em ambos. O bracelete é muito bem feito, casando superfícies espelhadas com superfícies escovadas em padrão vertical (com estrias um pouco mais visíveis que as da caixa), dotado de elos e terminais sólidos e um fecho simples assinado. Veste muito confortável, porém não afina na extremidade do fecho, deixando o relógio com uma aparência não tão fluída. Já a pulseira de borracha afina, de 20mm para 16mm, casando melhor com a identidade da caixa; é confortável de usar também, mas não é das mais bem feitas (se você é dono de um Squale com esse estilo de pulseira, ou tem uma Tropic original, sabe bem do que eu estou falando).

O Depthmaster é aquela peça que não pode faltar na sua coleção, especialmente se você é um entusiasta de relógios de mergulho. É uma peça repleta de história, personalidade, relevância e não te cobra um rim. Eu já garanti o meu — e você? Está esperando o quê?

Um abraço e até a próxima!!!

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