Por Fred Ripke
Apesar da constante evolução tecnológica e da infinidade de opções eletrônicas que, entre outras funções, também marcam as horas, e contrariando quem previu que os “smart watches” e celulares acabariam com os relógios tradicionais movidos por calibres a quartz ou mecânicos, o que vemos atualmente é uma situação oposta. Este mercado continua em alta, com volume de vendas resiliente e inúmeras opções de marcas, modelos e preços.
A gama de compradores de relógios tradicionais é bem ampla: alguns buscam apenas um instrumento confiável para marcar as horas; outros começam a se interessar pelo mundo da Horologia e querem peças acessíveis e interessantes; temos os entusiastas que possuem mais de uma peça e estudam bastante sua próxima aquisição analisando vários fatores tais quais história da marca, posicionamento do modelo, especificações técnicas, etc; e temos os aficionados e colecionadores que… Bem, vamos deixar estes para lá pois são doidos mesmo…
Independente de qual o seu perfil, tenho certeza que ao planejar sua próxima aquisição, três opções sempre virão à sua mente:
1- Marcas japonesas, com seus produtos robustos, rica história e excelente posicionamento na questão de valor percebido;
2- “Microbrands” que surgiram com muita força no cenário mundial, em especial na última década, geralmente focadas em design exclusivo com preços acessíveis;
3- Marcas suíças tradicionais, com forte presença global, em sua maioria hoje pertencentes a grandes conglomerados do mercado de luxo. Com portfólio de marcas históricas, forte trabalho de “branding” e hierarquização interna para atender diferentes níveis de preço (e de qualidade), estas gigantes agregam uma identificação quase universal e imediata aos seus produtos, o que para muitos é fator decisivo de compra.
Mas eu gostaria de falar a vocês, caras leitoras e caros leitores do blog da Herit Watches, sobre marcas (e seus modelos) de uma quarta opção que em geral voa sob nossos radares e passa despercebida: marcas tradicionais, em especial suíças ou alemãs, que continuam sob controle familiar. São empresas com décadas ou mesmo séculos de existência, que cultivam suas raízes individuais e entregam produtos com um legado que muitos de nós sequer sabíamos que existia.
E para começar, vamos com uma marca pouco (ou nada) conhecida aqui no Brasil, apesar de ter uma história fascinante e de vir de um dos mais relevantes polos produtores de alta Horologia do mundo!


Um pouco da História da Tutima Glashütte/SA
A Tutima é uma marca alemã que iniciou suas operações em 1.927 na cidade de Glashütte, que desde o século XIX se destaca como um polo relojoeiro dentro do que é hoje a Alemanha que conhecemos.
Tutima não é uma palavra alemã ou um nome de família, e sim uma derivação da palavra latina “Tutus”, que pode ser entendida como segurança, confiabilidade. Para uma marca que se propôs a fazer relógios resistentes e confiáveis, não poderiam ter escolhido melhor nome.
No início de suas operações a Tutima desenvolvia tanto calibres próprios quanto relógios de bolso e de pulso. Entre suas peças mais icônicas do 1º período da empresa encontra-se um cronógrafo desenvolvido para atender a especificação de uso dos oficiais da Luftwaffe na 2ª Guerra Mundial (apenas a Tutima e a Hanhart produziram modelos para esta especificação, sendo dos mais raros e desejados “fliegers” já produzidos).
Como efeito do final da 2ª Guerra Mundial, Glashütte, localizada dentro da zona soviética de ocupação, tornou-se parte integrante da Alemanha Oriental.
As empresas que lá ficaram tornaram-se um conglomerado estatal (Glashütte Uhrenbetriebe ou GUB) gerido pelo Governo Central Comunista, e as peças fabricadas neste polo no período pré-reunificação alemã apresentam características da Horologia soviética, perdendo totalmente a identidade individual que possuíam anteriormente. Porém a Tutima movimentou sua fábrica para a cidade de Ganderkesee (fora da área de ocupação soviética) pouco antes do fechamento da fronteira, iniciando o 2º período da empresa ao permanecer na Alemanha Ocidental. Seguiu, portanto, atuando de forma independente.
Com a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em 1.990, Glashütte renasceu como polo da relojoaria alemã, e mais do que isto, consolidou-se como uma região de excelência na Horologia. A GUB foi desfeita e as empresas históricas que a formavam retomaram seus caminhos individualmente. Inclusive, vale ressaltar que a denominação Glashütte/SA é um selo de localização, que só pode ser usado por empresas lá sediadas e que sigam as normas de conteúdo local na fabricação de suas peças. Uma curiosidade: o /SA é a abreviação de Sachsen, ou Saxônia, o Estado onde a cidade fica localizada.
Para voltar às suas origens, entre 2.008 e 2.011 a Tutima construiu um novo parque fabril em Glashütte e retornou suas operações para lá, iniciando o 3º período da empresa ao passar a utilizar o selo Glashütte/SA. Por isto que os modelos fabricados pela Tutima antes de 2.011 não possuem este selo, o que passou a acontecer a partir desta data.
A marca segue independente e atualmente fabrica diversas linhas de relógios, todos com altíssimo padrão de qualidade, sejam para mergulho, uso aeronáutico ou de design elegante e clássico, tendo em sua bagagem vários prêmios de reconhecimento.

A linha M2
Já mencionei que a Tutima tem, entre seus modelos icônicos, um cronógrafo usado pelos oficiais da Luftwaffe na 2ª Guerra Mundial. Esta tradição em cronógrafos construídos para atender as mais severas especificações militares seguiu no DNA da marca. Em 1.984 a Tutima teve seu modelo 798 homologado para uso dos pilotos da Força Aérea Alemã, e recebeu certificação e referência militar da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte), inicialmente para uso dos pilotos alemães a serviço desta Organização Militar. Era tão bom que acabou sendo usado também por esquadrões de outros países durante o período de contrato da marca com a OTAN, e em 1.989 atravessou o Atlântico e esteve oficialmente no pulso de pilotos da Força Aérea Americana (USAF). Até os dias de hoje os cronógrafos Tutima são os modelos oficiais de uso dos pilotos da Força Aérea Alemã.
Do 798 nasceu a atual linha M2, composta por modelos que compartilham as características de robustez e design do modelo dos anos 80 e que trazem o legado aeronáutico da marca para os dias de hoje.



O Modelo Mara Safari Chrono referência 6451-53
Recentemente a Tutima introduziu, na linha M2, um modelo de tiragem limitadíssima (apenas 250 unidades) que fugiu da estética aeronáutica para cumprir uma missão em terra: o Mara Safari referência 6451-53 tem parte da renda proveniente de suas vendas doada para o Mara Elephant Project, uma entidade conservacionista sediada no Quênia que atua na proteção dos elefantes e de seu habitat natural no ecossistema Serengeti / Mara, no Sudeste da África.
O modelo compartilha, com seus irmãos da linha M2, uma construção toda em titânio sólido jateado (caixa, bezel, “caseback”) de 46,5mm de diâmetro e 16mm de altura, vedação para 300m de profundidade (fato raro em cronos) e acionadores do cronógrafo integrados à caixa e recobertos por material antideslizante, o que reduz significativamente qualquer chance de acionamento indevido. O bezel pode ser rotacionado tanto no sentido horário quanto anti-horário e a marcação de minutos conta com “pips” luminosos.
O calibre utilizado é o Tutima 310 (base Valjoux 7750), automático com 62 horas de reserva de marcha, janela de data às 3hrs, “small seconds” às 9hrs, acumulador de minutos (até 30) às 12hrs e acumulador de horas (até 12) às 6hrs. O acúmulo de segundos da função crono é feito via ponteiro central. Como de praxe nos calibres Tutima, temos o selo da marca em ouro presente no rotor.



Como características individuais do modelo Mara Safari, temos um mostrador no tom verde safari sólido e sem brilho para garantir excelente legibilidade, com uma pulseira integrada em borracha no mesmo tom do mostrador. O “caseback” rosqueado ostenta o símbolo do Mara Elephant Project em alto relevo, e entre as gravações encontramos a numeração individual da peça no formato XXX/250.
É um relógio grande, porém de baixo peso e confortável no pulso por conta do encaixe da pulseira pela parte inferior da caixa, criando um visual “cushion” para o modelo.

Se você já pensou ou está pensando em adquirir um cronógrafo, provavelmente Tutima e sua linha M2 não faziam parte da sua “short list”, certo? Entendo perfeitamente.
Mas fica aqui o convite para reflexão: quantos modelos das marcas mais tradicionais que sempre vêm à nossa mente possuem legado e especificações como estas? E quanto custam? E que tal, se ao invés de seguir com modelos convencionais que todos conhecem e muitos possuem, você escolhesse uma peça que provavelmente não estará no pulso de outras pessoas, que causará curiosidade e iniciará conversas interessantes sobre Horologia? Novas conexões, novos aprendizados…
No final, a escolha certa é sempre aquela que vai agradar a você! E quanto mais opções forem conhecidas, melhor!
Espero que tenham gostado da leitura, e até uma próxima conversa!

