Wooden Atelier: quando o cuidado com o relógio vai além do relógio

Existe um momento interessante na trajetória de quem começa a construir uma coleção de relógios. Aos poucos, o olhar deixa de estar concentrado apenas nas peças.

Você começa a reparar mais nas pulseiras, nos estojos, na maneira de guardar os relógios e até no lugar onde eles ficam quando saem do pulso. O repertório aumenta e, junto com ele, cresce a atenção dedicada aos objetos que cercam a coleção.

É justamente nesse território que encontramos a Wooden Atelier, marca brasileira fundada por Rafael Trevisan e dedicada à criação de acessórios para relógios a partir de uma combinação de design, marcenaria, trabalho manual e engenharia.

A Wooden chama atenção pelo produto, mas sua história ajuda a entender melhor o que existe por trás dele.

Uma história que começa antes dos relógios

A origem apresentada pela marca remonta a 1980, em Embu das Artes, com a criação da Officina São Lázaro. Inspirado pela marcenaria tradicional japonesa, o trabalho desenvolvido ali estava ligado à fabricação artesanal de móveis e objetos em madeira.

Esse conhecimento atravessou gerações e acabou encontrando outros interesses: relojoaria, engenharia e design.

É dessa combinação que surge a Wooden Atelier.

A sequência é importante porque ajuda a explicar algo perceptível nos produtos da marca. A madeira não aparece simplesmente como uma escolha estética adequada ao universo dos relógios. Existe um repertório anterior relacionado ao material, à construção e ao trabalho artesanal.

E isso muda a maneira como enxergamos o produto.

Quando o acessório também merece projeto

Existe uma tendência natural de tratar tudo que está ao redor do relógio como algo secundário.

O relógio recebe atenção ao desenho da caixa, acabamento, material, movimento, história e procedência. Já o suporte onde ele repousa ou o estojo onde será guardado frequentemente é tratado apenas pela função.

Mas um colecionador mais atento percebe rapidamente que esses objetos também participam da experiência.

Um suporte precisa receber bem diferentes pulseiras. O contato com a peça importa. Proporções importam. Materiais envelhecem de maneiras diferentes. Acabamentos podem criar harmonia ou conflito com aquilo que está sendo colocado sobre eles.

É design de produto aplicado a uma função aparentemente simples.

Ao olhar para o trabalho da Wooden, é possível perceber essa intenção. Madeira, couro e metais não aparecem isoladamente, mas como partes de um conjunto pensado para acompanhar objetos que, muitas vezes, têm enorme importância emocional para seus proprietários.

A galeria ajuda a perceber algo que uma descrição dificilmente consegue traduzir sozinha: pequenos detalhes de construção acabam determinando grande parte da percepção de qualidade.

Uma marca brasileira ocupando um espaço interessante

Há também outro aspecto da Wooden que merece atenção.

Durante muito tempo, o mercado brasileiro de relojoaria conviveu com uma diferença considerável entre a oferta de relógios e a de acessórios dedicados ao colecionismo. Era possível encontrar peças de diversas origens e faixas de preço, enquanto muitos dos estojos, suportes e objetos mais elaborados continuavam vindo de fora.

A Wooden nasce justamente observando essa lacuna e propondo desenvolver e produzir esses acessórios no Brasil.

Isso torna o trabalho do Rafael particularmente interessante.

Construir uma marca brasileira nesse segmento significa disputar um território no qual procedência pesa muito. Quando falamos de artesania, marcenaria, couro ou objetos relacionados ao luxo, nosso repertório costuma rapidamente viajar para Itália, Japão, Suíça ou outros mercados que construíram durante décadas uma associação muito forte entre território e qualidade.

Uma marca nacional precisa criar suas próprias referências.

Não basta afirmar que existe cuidado artesanal. Isso precisa aparecer no produto, na escolha dos materiais, na consistência da linguagem e na experiência construída ao redor dele.

É aí que trabalhos como o da Wooden ganham relevância.

Colecionar também é aprender a olhar

Talvez uma das partes mais interessantes do colecionismo seja justamente essa transformação progressiva do olhar.

No começo, um detalhe passa despercebido. Depois de algum tempo, ele se torna impossível de ignorar.

Isso acontece com mostradores, movimentos, proporções e acabamentos dos relógios. Mas acontece também com os objetos ao redor deles.

Quanto mais repertório se constrói, mais difícil fica olhar para um suporte apenas como um lugar onde deixar o relógio.

Passamos a perceber material, desenho, execução, intenção e procedência.

O acessório continua cumprindo uma função, claro. Mas um bom projeto consegue fazer algo além: ele passa a fazer parte do ritual de possuir e cuidar de uma coleção.

E talvez essa seja uma boa maneira de entender o trabalho que Rafael Trevisan vem construindo com a Wooden Atelier.

O relógio continua sendo protagonista.

Mas tudo aquilo que escolhemos colocar ao redor dele também diz alguma coisa sobre a maneira como enxergamos nossa coleção.

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